Será que os capitalistas <br>aprendem com a História?

Rui Namorado Rosa
Após a fim da Segunda Guerra Mundial, a conferência de Brettton Woods (1944), entre as 44 potências vitoriosas sob a égide dos EUA, ditou uma «nova ordem» financeira internacional que superasse pela via financeira a profunda crise económica que antecedera essa Guerra. Essa conferência traduziu-se no Acordo de Bretton Woods, não subscrita pela URSS, que compreendeu a criação, com sede em Washington, do Banco Mundial (BIRD), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) – este em 1947.
Os EUA foram o principal protagonista dessa nova arquitectura, através da qual asseguraram o predomínio do dólar nos bancos centrais e no comércio internacional. Após um dilatado período de expansão económica sequente ao fim da Segunda Guerra Mundial, seguiu-se depois um longo período de recessão cujo fim não está à vista. Essa transição ficou assinalada por vários eventos.
Em 1973, assinalamos a guerra de Yom Kippur no Próximo Oriente, o embargo de fornecimento de petróleo pela OPEP e o sequente choque petrolífero e, ainda, o abandono definitivo do Acordo de Bretton Woods – no que se refere à desvinculação do dólar da convertibilidade com o ouro e a flutuação das taxas de câmbio entre divisas. Estava por esta via facilitado o caminho para os programas de “reajustamento estrutural” impostos pelo FMI aos países em desenvolvimento que, com o rol de privatizações, redireccionamento da despesa pública, reformas e disciplina fiscais, etc., conjugados com a liberalização do investimento directo estrangeiro e do comercio externo e a desregulamentação aduaneira, impostas através do GATT (agora WTO-OMC desde 1995), conduziram à acumulação de insolúveis dívidas externas nos países periféricos e de riqueza e poder económico em países do centro capitalista.
As normas internacionais foram sendo ditadas pelas potências capitalistas, com o seu poder diplomático, negocial e a ameaça quanto necessária. Assim, as cotações de «mercado» das «commodities» ou matérias-primas são fixadas nas bolsas de mercadorias de Londres e de Nova Iorque, sendo progressivamente depreciadas; enquanto, por outro lado, as grandes potências aplicam normas ou tarifas proteccionistas nas suas fronteiras em contraposição à eliminação de barreiras aduaneiras nos países da periferia, sob instrução do FMI.
A longa fase de recessão económica mundial que perdura desde há três décadas, está assinalada por renovada e mais feroz ofensiva do capitalismo, que procura reverter os avanços civilizacionais da descolonização e da libertação nacional, subsequentes ao fim da Segunda Guerra Mundial, para prosseguir a expansão e concentração do capital a nível planetário. Esta ofensiva sobre várias formas viria a ser codificada num «decálogo» sob a designação de Consenso de Washington, designação que resume o mínimo denominador comum das orientações políticas impostas pelas instituições financeiras internacionais sedeadas em Washington aos países da América Latina – que de facto traduz a orientação da política imperial para com a generalidade dos países «em vias de desenvolvimento».
Tal como no princípio do século XX, a concentração prossegue hoje e mais rapidamente ainda, mediante fusões e aquisições e participações. Como então, uma oligarquia de milionários que directa e indirectamente controlam capitais imensamente maiores do que aqueles de que são proprietários, ou de pequenos investidores que se arruínam ou enriquecem no jogo da especulação bolsista.
Mas essa é a face mais pacífica do capitalismo. Outra é o uso da força violenta para a subjugação, a rapina e a destruição de povos e países inteiros. O século XX é disso triste memória.

As guerras mundiais

A consolidação do ciclo económico e da hegemonia política dos EUA foi coadjuvada pela progressiva dolarização das reservas dos bancos centrais e do comércio mundial (com o apoio do FMI/BM/OMC). A partir da década de 1970, porém, o declínio económico relativo dos EUA resulta da perda de sustentabilidade global, ainda que dissimulado pela progressiva fuga para a acumulação de capital financeiro especulativo, por uma intensificação dos fluxos internacionais de mercadoria e de capitais, tendo em vista o mais agressivo saque de recursos, e pela difusão da doutrina neo-liberal nos planos económico e ideológico.
No plano político-militar é clara, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o propósito de os EUA assumirem a hegemonia unipolar do sistema capitalista mundial, embora inicialmente confinado pelo bloco socialista. Tendo o bloco socialista sido derrotado no confronto da Guerra-Fria, a partir do início da década de 1990 os EUA logo passaram a exercer o seu poder hegemónico já sem limites. Assim, lançaram as Guerras do Golfo e nos Balcãs, a primeira ainda com mandato da ONU a segunda ainda no quadro da NATO. Mas a sua vontade de acção unilateral vai-se afirmando progressivamente, quer no plano da legalidade internacional estabelecida (auto-excluindo-se dos tratados internacionais) quer no plano da decisão e da acção militar concreta.
As intervenções sucessivas que pontuam a artificiosa geo-estratégia militar norte-americana no Médio Oriente e na Ásia Central, são oportunidades para fazer jogos de alianças com facções políticas vulneráveis, tirando partido da heterogeneidade étnica, religiosa ou outra existente nesses países de fronteiras mal definidas e de poderes centrais difusos. A presença norte-americana alarga-se assim rapidamente nos planos económico e diplomático e sobretudo militar, no Oceano Índico, na Arábia Saudita, nos principados Árabes, no Afeganistão, no Uzbequistão, na Quirguízia. A presença militar dos EUA conta agora com um eixo de bases aéreas e navais que vai do Mediterrâneo Oriental até ao coração da Ásia Central, na fronteira com a China.

O saque de recursos como factor da guerra

Quando olhamos para o que foi a história do século XX, vemos como nela foi importante a indústria petrolífera. A necessidade visceral de acesso ao petróleo para a sustentação da base económica do crescimento capitalista é um factor objectivo da agressividade e da actuação geopolítica imperial.
Ao longo de um século a indústria petrolífera adquiriu progressiva importância, associada a igual importância adquirida pelas indústrias automobilística, aeronáutica e petroquímica, a que a indústria de explosivos está associada. Todos estes ramos industriais se desenvolveram na base da disponibilidade do petróleo e em íntima convergência de interesses capitalistas.
A prospecção de petróleo e o controlo das correspondentes reservas passou então a ser de importância estratégica. O Médio Oriente e a Ásia Central, com a bacia do Mar Cáspio e o Golfo Arábico-Persa, acabariam por se revelarem como a área geográfica de longe mais dotada em hidrocarbonetos – petróleo e gás natural – do mundo. A Primeira Guerra Mundial desencadeou a corrida ao petróleo e todas as potências procuraram obter posições no negócio. A Grã-Bretanha, que antes da Guerra já controlava o petróleo recentemente descoberto na Pérsia, suspeitava que a vizinha província da Mesopotâmia do império Otomano (Turco), seria igualmente dotada. Com o fim da Guerra e o colapso do império Otomano, a Grã-Bretanha obteve mandato da Sociedade das Nações para administrar a Pérsia, a Península Arábica e a Palestina.
Porém no Irão, fundado sobre a nação Persa em 1933, após a Segunda Guerra Mundial, o primeiro-ministro nacionalista M. Mossadegh nacionalizou as concessões exclusivas britânicas e fundou a National Iranian Oil Company (1951). Esse foi um episódio histórico que assinalou o início da apropriação nacional dos recursos de hidrocarbonetos no Mundo Árabe, subtraindo-os ao controlo exclusivo das empresas petrolíferas.
O Iraque continuou sob «protecção» Britânica mas o nacionalismo Árabe iria alterar essa situação. A monarquia foi derrubada e um regime republicano instaurado em 1958; a Companhia de Petróleo do Iraque (de capital britânico, francês e norte-americano) foi nacionalizada em 1972.
Na Arábia Saudita, só em 1944 foi constituída a Arabian American Oil Company (Aramco), com capital da Standard Oil e da Texaco a que mais tarde se juntaram as também norte-americanas Exxon e a Móbil. A primeira descoberta substantiva data de 1940 e o reservatório super-gigante de Ghawar (o maior do mundo, ainda hoje em produção, embora em declínio) veio a ser plenamente avaliado em 1948. Desde 1945 a Arábia Saudita e os EUA mantêm secretas relações privilegiadas. Porém, a Arábia Saudita foi fundadora da OPEP em 1960 e a Aramco foi nacionalizada em 1980 (embora mantendo relações especiais com as anteriores accionistas).
A Arábia Saudita é reconhecida como detentora das maiores reservas mundiais de petróleo. Contando conjuntamente o petróleo e o gás natural, o Irão e a Arábia Saudita detêm as duas maiores reservas mundiais de hidrocarbonetos. Ambos países também ocupam posições geo-estratégicas privilegiadas. O Irão tem um posicionamento único na articulação do Médio Oriente com o Extremo Oriente, a Ásia Central e o Oceano Índico, na trajectória das mais interessantes linhas de transporte e escoamento de hidrocarbonetos das mais ricas reservas de todo o mundo.
O nacionalismo Árabe, a par dos movimentos de libertação nacional e anticolonialistas, conduziu à progressiva nacionalização de recursos na região.
Mas não obstante a luta do nacionalismo Árabe, o reordenamento do Médio Oriente esteve sempre sob a mira e a acção, via diplomática e militar, das antigas potências coloniais, agora dos EUA também, tendo em vista manter um quadro político frágil, instável e susceptível de permanente intervenção e intromissão, directa ou indirecta. A constituição do estado de Israel, para acolher o movimento Sionista (em 1947) e de diversos estados feudais Árabes como o Koweit (1961) e o Bahrain (em 1971), ilustram bem a estratégia de controlo a longo prazo, sistematicamente prosseguida pelo sistema capitalista mundial na região, sob a hegemonia da Grã-Bretanha, primeiro, dos EUA, depois. A Guerra do Golfo em 1990, a invasão do Afeganistão em 2001 e a ocupação do Iraque em 2003 são «apenas» manifestações mais violentas dessa intervenção geopolítica.


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